Sábado, Maio 25, 2013

Duas pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé chegam necessariamente às mesmas conclusões

Hoje no Expresso

Admita-se, como Martim Silva no Expresso, que Cavaco convocou o Conselho de Estado “com as melhores intenções”. Considere-se, ainda como Martim Silva, que “o resultado saiu-lhe manifestamente furado”. Então, pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé não hão-de chegar necessariamente às mesmas conclusões? Cavaco vai tentar prová-lo de novo, convocando para Belém, desta feita, economistas.

Quem serão eles? Em princípio, é má ideia convocar Vítor Bento, que agora deu-lhe para não querer mais austeridade, o esquerdista Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, que se dispõe a gritar aos ouvidos da troika. Medina Carreira não é economista, mas é convocável, uma vez que sabe fazer projecções aplicando regras de três simples.

Mas há mais economistas que reúnem os requisitos para aparecer na convocatória de Belém. Catroga, claro, mas também Carlos Costa, Pedro Ferraz da Costa, Braga de Macedo, João Moreira Rato (o dos swaps que aparecem e desaparecem), António Borges, Nogueira Leite, o próprio Álvaro do memorando do fomento económico, o Mourinho de Cavaco (director da 1.ª campanha presidencial), Luís Palha da Silva (director da 2.ª campanha presidencial), Tavares Moreira (que poderá explicar os problemas que a Justiça coloca ao empreendorismo) e, acima de todos, Oliveira Costa. Se Cavaco quiser alargar o leque de participantes, não é de descartar que a convocatória englobe Vítor Gaspar, Abebe Selassie e, talvez, Wolfgang Schäuble.

Não obstante não ser previsível a convocação de Francisco Sarsfield Cabral, de Graça Franco, de Camilo Lourenço ou de José Gomes Ferreira, até porque não convém abrir mais excepções para além de Medina Carreira, é de supor que este naipe de personalidades permita a Cavaco provar que pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé chegam necessariamente às mesmas conclusões. Nem que sejam economistas.

Ainda o chumbo do PEC 4 (ou a troika como o pé-de-cabra para virar do avesso o Estado de direito)

• Miguel Sousa Tavares, O PAÍS DEBRUÇADO [hoje no Expresso]:
    ‘Não foi preciso que Lobo Xavier o tenha reconhecido, mas foi útil que alguém, da área política do Governo, o tenha feito: se hoje estamos sob resgate da troika, nas condições de submissão e miséria que nos foram impostas, não foi porque isso fosse inevitável ou porque a Europa ou a srª Merkel o tenham imposto. Foi porque o CDS e o PSD queriam ir para o governo e a via para tal era chumbar o PEC 4, tomando inevitável o resgate. Porque Miguel Relvas, conforme o próprio fez questão de lembrar ao despedir-se, andou dois ou três anos a trabalhar os caciques eleitorais do PSD, convencendo-os a provar um melão chamado Passos Coelho, que só depois de aberto é que se descobriria o que tinha dentro. É assim que se fabrica um primeiro-ministro a partir de um desconhecido, nos tempos que correm. (…)’

Grillini

Ici.

A cada um o seu Simplex

Hoje no Expresso

Que ninguém diga que os estarolas não têm um Simplex.

“Quando Cavaco fala sentimos um mau hálito político”

As palavras transcritas no título foram proferidas por Morais Sarmento. Ontem na RTP, o mesmo Morais Sarmento mostrava-se incomodado com a opinião de Miguel Sousa Tavares sobre Cavaco.

"Cavaco Silva está numa posição que não encontra paralelo nos anteriores Presidentes da República"

Hoje no Expresso
(clique para ampliar a imagem)

Peripécias do governo de iniciativa presidencial

• José Pacheco Pereira, Mecanismos de manipulação que funcionam [hoje no Público]:
    '3. Escolher metas do futuro manipulando o seu significado para obter resultados propagandísticos no presente.

    O melhor exemplo é a história do "pós-troika" para que colaboraram recentemente Portas e o Presidente da República. Portas fez um tardio e pouco convincente arroubo nacionalista contra "eles", os homens da troika, justificando a sua aceitação de medidas de austeridade gravosas com a necessidade de os ver pelas costas em 2014. O Presidente fez pior: usou o "pós-troika" para minimizar o caos governativo do presente em nome de uma inevitabilidade da mesma política para o futuro. Pretendeu alargar a base de sustentação do seu discurso no 25 de Abril, consciente, mesmo que não o diga, de que ele lhe tolheu a margem de manobra. Mas o Conselho de Estado teve os efeitos contrários ao que pretendia. O que ambos, Portas, o Presidente, somados a Gaspar-Passos o actual tandem governativo, pretendem é obter dois resultados inerentemente contraditórios: festejar a saída da troika como uma grande vitória governativa e depois garantir que tudo continua na mesma sem a troika.

    4. Concentrar a atenção nas medidas que vão cair e fazer passar, por distracção, outras bem mais gravosas.

    Um exemplo típico foi a intervenção de Paulo Portas sobre o "cisma grisalho". Portas concentrou-se naquilo a que chamou "TSU dos reformados" - designação que ele próprio criou com a habilidade de autor de soundbytes para, com a embasbaquice normal da comunicação social, facilitar a concentração de atenção num nome -, deixando deliberadamente na obscuridade todo um outro conjunto de medidas contra os reformados e pensionistas, muito mais gravosos do que aquele que recusava. O resto é o habitual: toda a gente passou a falar apenas das peripécias da "TSU dos reformados", e esqueceu as outras.'

“A l’époque, j’avais un avenir brillant devant moi, j’ai aujourd’hui un avenir brillant derrière moi!”

Hoje no Libération
[enviado pelo leitor Raúl C.]

Portugal - Le parfum entêtant des œillets:
    '(...) Cavaco Silva, le président de la République, s’en est chaudement félicité, invoquant l’«esprit de Fatima». Joana explose: «Nous y voici! Une génuflexion face aux roismages, une intervention divine pourmettre fin à nos tourments qui, bien entendu, portent le sceau de notre faute. Une symbolique rétrograde et une sinistre fable catholique, oui!» Actrice et chanteuse de 37 ans, jolie et brillante, elle s’estime privilégiée car en prêtant sa voix à des spots publicitaires, Joana gagne environ 1000 euros par mois. (...)'

"Santana, que “saiu de rastos”, como o próprio diz, tem uma lucidez a anos-luz da que hoje temos. Quem criticou a má moeda deve estar actualmente em agonia"

• Ana Sá Lopes, A culpa, o passado e a má moeda:
    ‘Desde que tomou posse, Passos Coelho empenhou-se em introduzir no discurso político o fardo da culpa – a dos outros – que o seu governo se encarregaria de redimir, através da imposição de castigos e penitências variadas.

    A culpa começou por ser, em simultâneo, generalizada – os portugueses tinham vivido acima das suas possibilidades – e personificada num homem monstrificado, José Sócrates, que tinha levado o país à bancarrota. Na entrevista que publicamos nesta edição, o insuspeito Pedro Santana Lopes – ex-primeiro-ministro, militante do PSD e grande adversário de Sócrates – encarrega-se de desmontar coisas simples, como a influência da construção errada do euro e da crise internacional no comportamento dos mercados face à economia portuguesa em 2009. Mas o governo – por ignorância extraterrestre, obsessão ideológica ou apenas estratégia de contorcionismo para fins de sobrevivência – optou pelo discurso de pároco que condena os desvios do rebanho (e do anterior pastor) varrendo para debaixo dos móveis todo o lixo de uma construção europeia débil que nos trouxe aqui.

    À medida que o tempo foi correndo, a culpa – que era inicialmente de todos, do país inteiro que “tinha vivido acima das suas possibilidades” – começou a ser segmentada: os funcionários públicos, esses preguiçosos, que enxameiam o Estado com as suas “benesses” e salários mais altos do que no privado; os reformados, esses privilegiados cujo sustento sai caro ao Estado e é impossível replicar na geração seguinte.’

Era uma vez um Presidente da República...

• Ferreira Fernandes, Cavaco Silva e o insulto do cronista:
    ‘(…) Uma coisa é chamar-lhe "burlesco" ou "cómico" ou qualquer outra palavra similar, tanto essas palavras estão - infelizmente, mas é assim - conotadas com os políticos. Mas o que o cronista disse ontem fere o homem público no âmago do que ele faz, desqualifica-o na sua função: "Sozinho, completamente sozinho, o dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio", foi dito por Vasco Pulido Valente, ontem, e publicado no Público. É opinião e eu já disse aqui várias vezes que processar uma opinião é como tentar caçar o vento. Só enobrece Cavaco não ter perguntado ao Ministério Público se há ou não matéria para processo no maior insulto que lhe fizeram esta semana.’

Sexta-feira, Maio 24, 2013

Georges Moustaki

Le Monde, amanhã
(clique na imagem para a ampliar)

Até tu, Bento?

O Zé Manel anda por aí

O Zé Manel Fernandes descobriu, por estes dias, que não sente afeição por “políticos-comentadores” e ocupa uma página do Público a maçar os leitores com a sua mais recente aversão. O Zé Manel tem preferência por “políticos-comentadores” bacteriologicamente puros: limpinhos, limpinhos, limpinhos. Claro, como ele próprio, que não se coibiu de utilizar o jornal que dirigia para o colocar ao serviço da inventona de Belém.

Uma leitura em diagonal da sua fastienta prosa revela que o Zé Manel tem um certo bichinho pela televisão. Só isso explica que, quando é preciso preencher um buraco na programação, ele aceite de imediato fazer de “comentador”, seja em que canal for. E fá-lo de borla, como se fosse o único.

Mas o que me deixou curioso foi a circunstância de o Zé Manel querer enfiar as “elites portuguesas” na caixinha que mudou o mundo. Pensei logo num acto de gentileza para com os seus colegas da fundação Pingo Doce. Mas a verdade é que o Zé só elogiou Medina Carreira, esse novo taumaturgo da economia. Aguarde-se, porque o Zé Manel há-de voltar ao local do crime.

A defesa de Cavaco

"No, pagliaccio non son"

Ninguém pára a Maria, grande repórter

Libelo demolidor

O Conselho Económico e Social, no qual têm lugar o Governo, os sindicatos e as associações patronais, emitiu um parecer sobre o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) apresentado em Bruxelas. Vale muito a pena lê-lo na íntegra. Aqui fica uma passagem da “Síntese Conclusiva” (p. 25):
    ‘No caso específico do DEO 13-17 não é apresentada, como deveria, no atual contexto nacional, uma estratégia de compatibilização da política orçamental com a política económica e social, ignorando que a questão fundamental é o crescimento económico e uma correta distribuição da riqueza produzida. A ausência de referência ao documento sobre política de crescimento emanado recentemente do próprio Governo, traduz uma aparente falta de compreensão do que deve ser a função das finanças públicas e das interdependências do sistema económico.

    A persistência numa política orçamental que degrada o aparelho produtivo e a confiança dos agentes económicos, não é compreensível, nem se apresenta minimamente justificada à luz do quadro macroeconómico apresentado.’
Bem vistas as coisas, quem é que defende este governo, para além do Presidente da República?

Da série "Frases que impõem respeito" [803]

Ontem na Visão (p. 28)


Sozinho, completamente sozinho, o dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio.
        Vasco Pulido Valente, hoje no Público

Cavaco (2)


Aníbal António Cavaco Silva viu a Casa Civil da Presidência da República ser desmascarada por promover a inventona das escutas, talvez a mais forte acusação que se possa fazer a um Presidente da República num Estado de direito — e calou-se.

Aníbal António Cavaco Silva viu o seu nome envolvido noutras fantasias e realidades do cavaquismo — e, tanto quanto se sabe, engoliu em seco.

Aníbal António Cavaco Silva foi hoje comparado a Beppe Grillo — e amuou.

Estranhos são os critérios por que se rege o Presidente.

Cavaco


    Pedro Magalhães: “Se Obama mandasse investigar todos os que o insultam o Dept de Justiça só fazia isso. Mas enfim, culturas políticas e jurídicas diferentes.”
    Hugo Beleza: “Com esta história, Cavaco acabou de escolher a palavra de ordem da próxima manif em Belém. S. Tavares ainda vai reclamar direitos de autor”
    Tiago Antunes: “Como é? A tropa da claustrofobia democrática já está a preparar a manif em frente ao palácio de Belém?”
    Francisco da Silva: “Imaginem que isto era uma monarquia e teríamos de levar com os filhos, netos e bisnetos do Cavaco para todo o sempre?”
    Hugo Beleza: “Afinal Cavaco sempre lê jornais, pelo menos o Jornal de Negócios...”
    Vega9000: “Breaking: Beppe Grillo processa MST por ofensa ao bom nome. Estás tramado Miguel.”

"Todas essas mensagens são erróneas mas todas elas são também favoráveis ao Governo"

• Pedro Silva Pereira, Mudando de assunto:
    Quando estão anunciadas medidas que marcarão decisivamente o futuro do País e está tudo por consensualizar (dentro e fora do Governo) quanto ao dia de amanhã, o Presidente da República preferiu mudar de assunto e convocou o Conselho de Estado para falar de “bugalhos”.

    A pergunta que ocorre fazer é esta: porque é que a actualidade não é tema que convenha ao Presidente?

    Comecemos por desfazer um equívoco crónico: o Conselho de Estado não é um órgão de consulta do Governo, é um órgão de consulta do Presidente. E não é o Presidente que governa, nem agora nem no "pós-‘troika'". Ora, não cabendo ao Presidente definir a estratégia de governação do País, nem presente nem futura, não se percebe que tenha de ser aconselhado sobre ela.

    Coisa diferente, e mais compreensível, seria o Presidente usar a sua magistratura de influência para promover processos de concertação política e social sobre a estratégia de desenvolvimento do País, que cabe ao Governo definir. Mas nem o Conselho de Estado foi convocado para discutir propriamente os "processos de concertação", nem dele saiu nenhum impulso conhecido a uma dinâmica concreta de consensualização de uma estratégia "pós-‘troika'". A conclusão só pode ser uma: o Conselho de Estado foi um fiasco. Não passou de uma tentativa falhada de mudar de assunto.

    Mas, afinal, mudar de assunto porquê? A resposta, creio eu, está nas quatro mensagens implícitas na surpreendente agenda fixada pelo Presidente (a discussão do "pós-‘troika'"). Todas essas mensagens são erróneas mas todas elas são também favoráveis ao Governo.

    A primeira mensagem é a própria ideia de que a 7ª avaliação já está, como disse o Presidente, "para trás das costas" - como se o assunto estivesse arrumado, abrindo espaço para que as atenções se concentrem no futuro. Nada mais falso: nem o Governo sabe ainda concretizar com rigor muitas das medidas de austeridade pressupostas na 7ª avaliação, nem sobre elas se estabeleceu qualquer concertação política e social ou sequer um consenso firme dentro do próprio Governo. Parece evidente que a prioridade do Presidente da República deveria ser enfrentar a complexa realidade de hoje.

    A segunda mensagem que resulta da agenda futurista do Presidente é a ideia de que, fechada a 7ª avaliação, a ‘troika' está de saída - como se isso estivesse já ali, ao virar da esquina. A verdade é outra: não só o programa acordado pelo actual Governo com a ‘troika' implica novas medidas brutais de austeridade que têm ainda de ser consagradas no Orçamento Rectificativo de 2013 e no Orçamento para 2014, como o grau de destruição da economia causado pela espiral recessiva, com os seus reflexos no agravar da dívida pública (127,3% do PIB), deixarão o País sem condições para um regresso sustentável aos mercados e, portanto, à mercê de um qualquer sucedâneo da actual ajuda externa, com ou sem ‘troika'.

    A terceira mensagem que se esconde na agenda fixada pelo Presidente - e porventura a mais enganadora - é a ideia de que pode haver dois debates distintos: um, que está na ordem do dia, sobre as medidas de austeridade; outro, de que agora se lembrou o Presidente, sobre o "pós-troika". A distinção, porém, não faz sentido: como não pode deixar de saber quem se disse preocupado com a espiral recessiva, a situação do País no "pós-‘troika'" será profundamente determinada pelas medidas que forem aplicadas agora.

    Finalmente, da agenda do Presidente decorre a mensagem implícita de que este é o momento para começar a discussão sobre a estratégia para o período pós 2014. Mas deve haver nisso algum lapso: como é certamente do conhecimento do Palácio de Belém, o Governo já aprovou e entregou em Bruxelas o Documento de Estratégia Orçamental para 2013-2017, cujas metas orçamentais condicionam decisivamente qualquer estratégia no período "pós-‘troika'". E fê-lo sem qualquer prévio diálogo político ou social, justificando merecidas críticas dos partidos da oposição e dos parceiros sociais. Só não se ouviu o Presidente da República.’

Da série "Frases que impõem respeito" [802]



Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva. Muito pior do que isso, é difícil.

♪ The Kinks (Dave Davies)

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